quinta-feira, 10 de novembro de 2011

GAROTA PÔR-DO-SOL (Edu Reginato)


Coisa bonita a vista
ponte, carros, aviões,
Patrícia.
Uma pontinha queima
mistura
maresia.
Coisa bonita a Nina,
o Rio, as luzes,
céu degradê,
rosaluzes,
grama
canga
maçã
alarme de carro
celular morrendo
na vista, silêncio.
Coisa mais bonita
o silêncio
o mar
voz sussurro
rebentação da maré
verdades
decepções
felicidades
sol se esconde,
anoitecer.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

NOIR (BATONE)


Meu querido irmão e amigo Batone compôs uma das canções mais bonitas que conheço. Acho que ela toca fundo em mim porque vivenciei, junto do Batone, todas aquelas sensações que ele imprimiu na letra.
Nós tínhamos uma relação com a noite do Flamengo semelhante a que os malandros tem com a Lapa.
Éramos boêmios comportados e mais parecíamos personagens de um filme de Woody Allen.
Gostávamos da particular simplicidade escondida nos bairros abastados: Cinema Paissandu, caldo de mocotó, pinga de alambique, cigarros Hollywood, jazz, chorinho e conversar muito, muito mesmo e vagar pela noite acreditando sermos invulneráveis. Só o tempo estraga as coisas. Temos que tocar nossas vidas e crescer era inevitável, mesmo para marmanjos trintões como na época. Sobram histórias hilariantes, dramáticas e NOIR.

Abaixo posto o texto do Batone que afanei do seu blog ( http://batonebatone.blogspot.com) sem permissão, mas ele me perdoa. Um texto emocionante que através de outra ótica fala sobre os nossos tempos e como a bela música surgiu.


NOIR

Adorava morar na Paissandú. O bairro do Flamengo é pra mim o Rio maravilha. Nos bons tempos notívagos, cruzávamos o Aterro de madrugada, eu e Dú, avessos à toda periculosidade que pode oferecer o maior parque do coração boêmio da Gomorra do Baixo Equador. Frequentava o Largo do Machado nas horas mais ermas, para, sempre na companhia agradabilíssima e preciosa do Dú, fumar um cigarro barato, beber uma cachaça com caldo de tutano ou ter uma bela dor de barriga com a mussarela vencida das pizzas do Planalto. Alías, ali no Planalto do Chopp, as pizzas tinham o nome dos Ministérios, havia a Cultura e Educação, a Economia, a Turismo… a que a gente mais gostava era a Agricultura, que vinha coberta com mais legumes. Fala pra mim se o fulano que teve essa idéia não merecia um prêmio.

Gostava de tudo naquelas redondezas. Dos bares-espeluncas ao Belmonte. Quantas noites varadas na praça São Salvador com o Fábio Maleronka possuído de oratória. Pegamos o auge da redescoberta do coreto com as rodas de samba e o choro revitalizando o lugar da noite pro dia. E o que dizer do cinema Paissandú. Entrei tantas vezes sem pagar simplismente porque não havia ninguém na bilheteria (tudo bem que geralmente o filme já havia começado) e tudo que separava os poucos metros entre a porta da locadora Estação, donde eu era cliente assíduo, e a entrada da sala escura era uma inocente cortina preta. Irresistível. Nessa famigerada sala, a única que eu conheci que abrigava ainda uma área exclusiva para fumantes, o Cinema Novo nasceu e cresceu. Diz a lenda que Glauber interrompeu projeções com discursos acalorados. Eu sei que vi na minha frente o Zelito Viana chorar, como eu, após a projeção de “Glauber, Labirinto do Brasil”, de Silvio Tendler.

No árabe da Galeria Condor, a melhor esfiha do lugar, conheci o Dib Lutfi, amigo terno que nos ensinou que a genialidade pode ser tão leve quanto o é um dom de Deus. Conheci ali também o BNegão e lá um dia conversei com o Humberto Effe. Enfim, tudo isso pra dizer que nós adorávamos esse miolo preservado do Rio. Até torcer pro Fluminense eu comecei, na esperança de contrair aquela paixão incognicível que nunca me picou.

O fato é que adorávamos tudo dali. Do açaí do Pin-Pin, tenho testemunhas, cheguei a comer 1 kilo e meio junto com o Dib. A Gabi mesmo, pra morar comigo, quis que a gente achasse algum apê na Paissandú. Mas um dia tivemos que nos mudar. Na verdade a conjuntura é que mudou e de uma hora pra outra fomos parar algumas quadras pra frente em direção à Glória. Não era o pior lugar do mundo mas o deslocamento de perspectiva nos abalou mais do que poderíamos imaginar. Deu que a gente veio parar no Canadá, ou melhor, no Quebéc.

E foi nesse contexto que escrevi Noir. Contando assim parece um lamento burguês, mas ela é sentida até o último fio de cabelo. Aconteceu que dentro dela aparecem essas coisas que, no encontro entre a palavra e a nota musical, geram imagens tão significativas que não ousaria dizer senão assim, em forma de canção. Agradeço aquele domingo quando o Rafael Gryner, cheio do seu entusiasmo prolífero, levou à sério a minha sugestão de pensar no Ennio Morricone pra darmos os primeiros passos do arranjo. Ali mesmo, na cozinha da FiletComFritas a música ganhou um corpo conceitual que foi seguido à risca pela sensibilidade de todo mundo que dela participou. E nela participam Humphrey Bogart, Marlene Dietrich e Nelson Rodrigues.

Para esse que era conhecido como carinhosamente como o “homem pássaro” na Academia do Barro Branco, “Noir” é bem mais que um trocadilho… Para os corações encardidos de sonhos, eis uma canção-diluente.

||:   Dm    C    Bb9     Am   :||
Mudando novamente de endereço
ao encalço de mim mesmo
sustentando aeroplanos
no ar pra que nada venha a desabar
no ar, faço trovas, trovejando
no ar, conto as dobras do tempo solar
no ar, para onde, para quando...
sou refém agora do dinheiro
ele dita o paradeiro do meu rádio e travesseiro
tudo nessa vida tem seu preço
de repente o sucesso
dura um fósforo aceso
no ar, ele brilha antes de suspirar
no ar, tudo inflama e vira cinza
no ar, as estrelas da sessão privé
no ar, uma rádio, uma canção qualquer
partindo novamente do começo
desprezando todo acesso
me conheço, réu confesso
noir como o sobretudo de Bogart
noir, como um morto na piscina
noir, como um anjo azul de cabaret
noir, bem novela, bem a vida, como ela é...

DEZESSEIS ANOS (Edu Reginato)


À Sandra


Meus dias são feitos
de segundas, sextas e sábados,
não sei contar datas,
péssimo com números
antes e depois desse poema
não quero saber quantos anos
tenho.

Dizia um amigo meu:
Seu tempo é volátil.
E parecia não envelhecer.
Os outros envelheciam ao redor.

Era uma questão de
remediar o Fim.
Uma piada tem fim.
Um filme tem fim.
Até o dia tem um fim,
passageiro, porque vem a noite.

A garota loira me ensinou
a não ter vergonha do fim.

O Fim vem, The End.
Acabou.
Mas, o espírito zombeteiro
sussurrava no ouvido dela:
tudo continua...
E sempre haveria eu
para duvidar.

Aprendi a envelhecer
junto daquela garota,
até deixei que cabelos brancos
pronunciassem.

Deixei-me envelhecer.
Mais que antes.
Mais gordo, mais sábio,
mais tolo,
mais feliz.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

AGORA, APRESENTAMOS O NOVO E REVOLUCIONÁRIO... (Edu Reginato)

ding...dong
ding...dong
Ela atendeu a porta.
O Homem limpava os seus sapatos no tapete de boas vindas.
Era um vendedor, ela sabia.
No fundo da casa uma criança gritou, manhosa.
Ela agradeceu, mas recusou qualquer coisa antes de ele falar. Alegou estar sem tempo.
O Homem segurou a porta com um dos pés, disse que levaria uns minutinhos, o que ele tinha para mostrar mudaria a vida dela.
Afinal, o que seria perder um tempo escutando um papo de vendedor. Aquela manhã estava monótona mesmo.
Gritou para a criança brincar no quarto e deixou o homem entrar. Ele parecia confiável e polido. Por que não? Uns minutos depois era só recusar qualquer coisa que ele estivesse vendendo e voltar para sua vidinha.
- O que é que você tem para me mostrar?
- Ah, minha senhora! Tenho aqui um produto revolucionário que vai mudar a sua vida.
Então ela percebeu que ele segurava uma grande mala, daquelas de couro duro, antigas, bem gastas como se tivesse rodado o mundo.
Ele abriu a mala, retirou um aspirador, bem antiquado, um modelo ultrapassado, sem o design moderno de hoje. Era uma peça marrom, um enorme retângulo com um tubo articulado.
Ela olhou para o eletrodoméstico quase rindo. Isso!
- Meu senhor, eu já tenho um aspirador. E olha! É bem mais bonito que esse tijolão.
- Mas senhora esse aspirador, é diferente uma peça de tecnologia que estamos lançando no mercado. E a senhora terá a chance de testá-lo antes de ser vendido nas lojas. Estamos fazendo testes de mercado, primeiro vendendo em baixa escala diretamente ao cliente para depois lançarmos em escala industrial já com aprovação de público.
- Ahã. Grunhiu a dona de casa, achando que estava fazendo parte de um embuste.
- Sei que está incrédula. Mas esse aspirador é a última palavra em tecnologia.
- E o que esse aspirador faz de especial.
- Ah minha senhora! Esse aspirador suga as incômodas sujeiras para dentro dele.
A dona de casa quase engasgou. Meu Deus, isso é uma palhaçada!
- Senhor, o meu aspirador faz a mesma coisa. na verdade todo aspirador no mundo faz a mesma coisa!
O vendedor ergueu uma sobrancelha desafiante.
- E para onde a senhora acha que a sujeira vai parar?
Deus o que está acontecendo aqui? Será uma pegadinha?
- Ora meu senhor, a sujeira vai para um saquinho de papel que fica dentro do aspirador!!!
O vendedor abriu um sorriso vencedor.
- No caso desse aspirador a sujeira não vai para saquinho nenhum.
- Ora, então para onde vai a sujeira? Para um compartimento especial?
- Não, minha senhora. A sujeira vai para outra dimensão!
A dona de casa engasgou pela segunda vez. Agora sim, isso é uma pegadinha!
- Meu senhor, o senhor poderia se retirar estou com o feijão no fogo e tenho outros afazeres...
- Sei que a senhora está incrédula. Mas é a pura verdade. Toda a sujeira sugada por esse aspirador é desmaterializada desse plano para outra dimensão. a senhora nunca mais terá que se incomodar com a incômoda tarefa de trocar o saquinho de papel quando ele encher.
Naquele momento a situação estava tão surreal e a manhã tão monótona que a dona de casa resolveu aceitar a brincadeira. Vai saber. O tédio e um bichinho tão terrível quanto a curiosidade.
- E como, meu senhor, essa maravilha acontece?
- Ah minha senhora! Que bom que perguntou! A resposta é simples e ao mesmo tempo complicada.
- Ahã?
- Os técnicos de nossa empresa. Uns homenzinhos muito inteligentes conseguiram condicionar um pequeno buraco negro dentro de cada unidade de nossos aspiradores!
- O que? Um buraco negro o que é isso?
- Ah minha senhora, também fiquei nessa dúvida quando fui aceito para esse trabalho. No entanto nossa empresa tratou de nos dar um curso para entendermos melhor o produto que iríamos vender. Um buraco negro é um é um corpo celeste com campo gravitacional tão intenso que a velocidade de escape se iguala à velocidade da luz, isso quer dizer uns 1 079 252 848,8 quilómetros por hora. Sabe, Nem mesmo a luz pode escapar do seu interior.
- e ele coube aí dentro do aspirador?
- Isso mesmo, os buraco negros podem ter qualquer tamanho, de microscópico a astronômico.
- Mas, como colocaram esse buraco negro aí dentro?
- Bem, minha senhora, pelo que entendi a partir do curso que me foi apresentado, parece que nossos técnicos conseguiram acelerar a fase de vida de uma estrela de grande densidade, de alguns milhões de anos para alguns dias e assim provocar uma explosão de uma super-nova e assim dar origem a um buraco negro.
A dona de casa estava cada vez mais aturdida. No entanto era inegável sua curiosidade, querendo saber até onde ia a brincadeira.
- Mas senhor como conseguiram pegar uma estrela e fazer uma explosão e disso virar um buraco negro? E colocar tudo num aspirador?
- Ah minha senhora! Os técnicos da minha empresa são muito sabidos. Eles não podiam pegar uma estrela, por que elas ficam muito, muito, muito, muito longe. Mas eles descobriram como sintetizar uma. Eles conseguem fabricar pequeninas estrelas de grande densidade e acelerar sua morte fazendo-as explodirem e dando origem a um pequenino buraco negro é engarrafado nesse aspirador.
- Ahhh! Sim, ficou mais claro! Mentiu a dona de casa que queria sair dali correndo e gritando, no entanto, devido a sua boa educação, se resignou a puxar uma cadeira.
- Minha senhora graças ao engenho de nossos técnicos os problemas de sujeira do mundo acabaram! Você poderá limpar a sua casa e sua filha e a filha de sua filha e a filha da sua neta e todas gerações seguintes poderão limpar a sujeira com este mesmo aspirador sem nunca precisar trocar o saquinho de papel.
- E...e...e...Quanto custa esse buraco negro...quer dizer esse aspirador.
- Ah minha senhora! Custa uma bagatela, no entanto antes de sua compra quero deixar uma amostra do produto para a senhora testá-lo por uma semana. Se não gostar é só devolvê-lo para mim no término de sete dias e assunto encerrado. Anotaremos seus pareceres, os prós e contras do produto na sua opinião e lhe desejaremos uma boa vida, infelizmente um pouco mais suja se for negada a compra, é claro!
E o vendedor deu uma boa gargalhada. Humor de vendedores é tão incompreensível como buracos negros.
- O que me diz, minha cara senhora?
A dona de casa estava pasmada. Seria uma brincadeira ou não? Mas e se os pequenos homenzinhos engenheiros de aspiradores tivessem mesmo construído um eletrodoméstico com um buraco negro embutido e se ela nunca tivesse que trocar aquele imundo saquinho de sujeira e ácaros. Os malditos ácaros seriam desintegrados para outra dimensão. Seria como o paraíso na terra. Um mundo sem ácaros, sem pó nos vãos dos tacos de madeira, sem migalhas no chão, sem fios de teias de aranha nos cantos das paredes! Não teve dúvida e aceitou fazer o teste. O que ia perder? Se não gostasse devolvia o aspirador, mas se gostasse faria um bom negócio. Ela pegou a cláusula de teste colocou os números de seus documentos, assinou.
O vendedor ficou muito satisfeito abrindo um brilhante sorriso pois faria mais uma cliente feliz e depois, talvez, ganharia uma boa comissão por suas vendas. Ele já estava no portão da rua quando lembrou de avisar a dona de casa sobre um detalhe.
- Ah minha senhora! Não se esqueça, a senhora não precisa abrir o aspirador para retirar o saquinho de sujeira, porque ele não tem saquinho de sujeira. Os nossos técnicos advertiram para avisarmos nossos felizes compradores para NUNCA ABRIREM O ASPIRADOR!
O Vendedor entrou no seu reluzente carro e saiu rua abaixo.
A dona de casa feliz da vida, mal podia se aguentar de vontade para experimentar a maravilha tecnológica. Ligou o aspirador na tomada e clicou no botãozinho on/off. O barulho da máquina parecia um sussuro e a dona de casa passou o aspirador em todos os cantos, em todas as almofadas, em todos os armários, até no quintal. E foi assim por uns três dias, a dona de casa querendo desafiar todo o poder da máquina para provar para si mesma que aquilo poderia ser verdade. Cada vez mais ficando ambiciosa no seu experimento, pegava baldes e baldes de terra e jogava no chão da sala passando o aspirador que não engasgava em nenhum momento, sugando tudinho. Depois, foram baldes de cascalho, lixo orgânico, um pássaro morto que ela encontrou no quintal, gordura da caixa de gordura. Tudo era sugado sem problemas e deixava o local absolutamente limpo.
Realmente, não havia mais dúvidas, tinha que haver um buraco negro naquele aspirador. Será que existia mesmo? E como eu disse alguns momentos atrás o tédio é um bichinho mais terrível do que a curiosidade. Ou seria o contrário?
Bem, posso resumir que, num milionésimo de segundo, parte da cidade desapareceu, desmaterializada para alguma dimensão.
Posso afirmar que esse aspirador não foi um sucesso de vendas e nem foi lançado no mercado nacional. Logo que várias regiões do país começaram a se desmaterializar, muitos se perguntaram a origem dos estranhos fenômenos e a fábrica dos revolucionários eletrodomésticos teve que fechar as portas abruptamente e seus vendedores foram discretamente eliminados.
Assim, mais um revolucionário engenho da humanidade não viu a luz dos novos tempos e não resolveu o problema da sujeira que aflige as nossas esforçadas donas de casa.

A FESTA (Edu Reginato)

À Origenes Lessa

             Ana desamassou o babado do vestido e ajeitou os pequenos seios no seu bustiê rendado.
              Estava com aquela boa ansiedade que precede as festas. Uma festa só para ela era o acontecimento mais especial em anos.
            Sempre sentiu o vazio de não ter ganhado uma festa de quinze anos. Não era por menos, seu pai estava duro e bêbado, a mãe triste vagava pela casa e Ana ficava repetindo baixinho “parabéns para você” diante de uma novela de Janete Clair.
         Mas, memórias tristes são passado e agora ela teria sua tão sonhada festa. Seus amigos se esbaldariam, enchendo-a de presentes. Todos estariam garbosos, nos trinques.
            Viria a Rita que gostava de pintar cada unha de uma cor diferente e cantava músicas dos Beatles. Bem, achava que cantava, pois nenhuma delas tinham discos deles e, tão pouco, sabiam falar patativas de inglês.
               Ah! Sem falar no Betinho que era um tremendão e tinha um sorriso lindo, além de jogar futebol que nem o Rivelino. Um pão!
                Todos amigos encheriam a casa de alegria como nunca antes.
                Ana meche mais um pouco no vestido e coloca a mão em frente da boca, bafejando, para ver se o hálito estava sob medida, ainda ajustou o belo lacinho vermelho preso nos cabelos com uma presilha.
            O tempo era um enfado, demorava para correr. A hora estava chegando e ela secava as mãos úmidas de suor frio.
              Queria colocar um disco na vitrola, mas achava tolo começar tudo antes da chegada dos amigos. Seria muito goiaba ela ficar ali rodopiando sozinha – pensou Ana.
               No seu íntimo Ana queria ser lembrada. Queria que seus amigos lembrassem de sua festa quando crescessem e ficassem velhos para comentarem: “Ei, lembra da festa da Ana? Aquilo que foi festa! Bons tempos...”.
             Ana queria deixar de ser a menina de seios pequenos e roupas batidas, tímida que só ela e gaguejante quando falava com os meninos.
                Nessa festa seria o fim dessa menina. Adeus velha Ana! Ela não gaguejaria e no final daria um bom beijo no Betinho e ele falaria: “Caramba broto, gamei!”. No outro dia, na escola, todas meninas cochichariam: “Olha lá a Ana! Ela beijou o Betinho. A menina é uma brasa!”.
                 Ana piscava e sorria com seus pensamentos, no entanto a hora não passava. Cadê o pessoal?
                Mas, claro que a hora não passava – pensou ela – estava sem um relógio para ver o tempo passar. Procurou um relógio na sala e foi assim que percebeu que estava no escuro, todas as luzes da casa estavam apagadas.
               Ana pensou que seria uma festa surpresa, mas se fosse uma festa surpresa o certo era ela não estar ali. O certo seria ela chegar e todos a surpreenderem com mil parabéns.
               Sentiu mais aflita e um pouco confusa por estar no escuro esperando sua festa.
               Pouco depois, escutou um barulho na porta de entrada. Gente mexendo na maçaneta.
               O coração de Ana pulou de alegria. Finalmente, os primeiros convidados estavam chegando!
               Fez os últimos ajustes no vestido e preparou uma encenação de surpresa.
              Quando a porta se abriu um casal entrou e acendeu as luzes.
              Ana segurou o choque, pois não conhecia aquelas pessoas.
            A mulher colocou a bolsa no sofá que Ana não conhecia. O homem falava  numa caixinha iluminada que segurava perto do ouvido como se fosse um telefone, mas sem fio e ligou uma televisão  que ela nunca havia visto antes.
            Ana sentou numa cadeira pero de uma mesinha que parecia madeira, mas era de um metal que ela desconhecia.
            Ficou em silêncio, observando o casal. Quando o homem parou de falar na caixinha iluminada. Ele sentou no sofá junto com a mulher e começou a beijar o pescoço dela. Que horror, pensou Ana.
         Isso durou uns bons momentos e Ana tentou não ver coisas que jamais nenhuma novela havia mostrado, sentia suas bochechas quentes e ruborizadas.
               A mulher falou para o homem que precisavam dormir, pois a manhã seria puxada de tanto trabalho.
            O casal saiu da sala. Ana escutou, ainda, alguns barulhos, depois todas as luzes foram apagadas. Silêncio. Ana com seu belo vestidinho e fita vermelha no cabelo estava no escuro, novamente.
               Suas mãos mais suadas, sua ansiedade mais aflorada e murmurando baixinho:
               - Um dia todos virão à minha festa.

DAS COISAS BELAS E INJUSTAS (Edu Reginato)

           
            O septuagenário acendeu mais um cigarro, puxou a brasa avermelhada, soltando um jato de fumaça pelas narinas. Olhava para o chão procurando palavras como migalhas para continuar sua conversa com o rapaz que estava sentado junto dele naquele banco de praça. A manhã era fria, no entanto o velho tinha um meio sorriso.
           - ... É isso aí, filho. Naquele dia,eu havia saído do meu trabalho de office boy da Ga­zeta. Havia planejado tudo. Tinha quinze minutos para correr até os por­tões do colégio das freiras para encontrar a minha querida Mariana saindo.
            - Ela era sua namorada?
            - Ela talvez não soubesse, mas eu sabia.
            O velho ficou olhando além de seus óculos grossos bifocais, além do tempo, em direção ao ventre do passado e daí voltou.
            - Onde eu estava?
            - Nos portões do colégio. Respondeu o belo rapaz, muito interessado naquela conversa de idoso.
            - Isso mesmo, filho.
            "Me aproximei dos portões. Estava todo esbaforido e suado. A freira que parecia um grande pinguim e tomava conta da entrada me ignorou, passando a verificar as meninas que saíam. O sino da escola tocava demoradamente...
            ... logo lá estava ela caminhando pouco atrás à euforia galopante das meninas que aos montes saíam, felizes pelo término das aulas.
            Seu cabelo castanho longo. Seus olhos de caramelo claro. Sua inocência de menina de boa família. Sua candura de menina de quatorze anos. A saia rodada azul, até os joelhos. A blusa de mangas curtas, branca, e o colarinho fechado com uma fina gravatinha de veludo negro. Os sapatinhos pretos, tão delicados, limpinhos, engraxados, chutando pedrinhas, confortavelmente acomodados em meias soquete de algodão fino.
              Deslizava, descendo a escadaria.
           Quando Mariana atravessou os limites do portão, chamei-a. Minha voz voou pelo ar cansada por causa da corrida, mas chegou aonde eu queria. Ela arregalou os olhos com curiosidade, talvez pensando: "O que esse menino quer?".
              A freira acompanhou com o olhar a menina caminhando até mim.
        Como em todo coração, não importa se jovem, adulto ou velho, o acelerar é inevitável. Um TumTumTumTum de tambores de nativos africanos dentro do peito. E uma incômoda gagueira me atacou.
            - Ma...Ma...Mariana, sabe, eu vim aqui e...e...sabe?
            - O que?
       De repente o meu controle voltou, o sangue voltou a circular na cabeça, e as palavras saíram despreocupadas.
            - Mariana, você aceitaria ir ao cinema comigo?
            Sei que o convite pegou-a desprevenida, além, é claro, da curiosa frei­ra que esticava os ouvidos para a conversa.
            - É pos...poss...possível...- pausa para tomar fôlego - eu adoraria ir ao cinema contigo.
            Filho, te juro de pé junto, que ao término da resposta da menina, o sol do fim da tarde que morria ao horizonte no seu úl­timo suspiro, cadenciado ao abrir de meu sorriso, emitiu uma luz de alegria, tornando os cabelos, a pele e os olhos dela dourados. Foi um baita momento bonito!!!
            Até a freira levou as mãos ao peito, suspirando docemente.
            Quando nos despedimos, já havíamos combinado o horário que eu iria buscá-la e ela desapareceu ao dobrar a esquina, virei-me e dei conta da freira que sorrindo deu-me passagem.
        Eu fui para casa, assoviando, saltando, flutuando. Mesmo assim, havia um friozinho na boca do estômago. Pois, naquela época, diferente de hoje, nós, garotos, tínhamos que pedir autorização aos pais da garota, para podermos namorá-la e ai se o pai não fosse com sua cara...
             Nesse momento dependia da sorte ou da impressão que os pais tinham de você.
          E, naquela noite que fui buscar a Mariana em casa, a preocupação era tanta que fui tomado por delírios: toquei a campainha e a porta se abriu num longo rangido estridente dos ferrolhos. O olhar tenso e cadavérico da mãe que pede para entrar ao som da rádio-novela embriagando o ambiente de um modo que... oh!!! No alto da escadaria entre luz e penumbra um homem segura a mão de uma menina. A medida que descem, degrau por degrau, os vultos tomando forma. Um homem enorme lembrando Boris Karloff, vestindo terno preto, chega junto a mim...
              O delírio se desfez.
              Uma gota de suor escorre por minhas costas. O homenzarrão abre um sorriso.
            - Ei, garoto! Acorda! Você pode levar minha filha ao cinema. Mas, lembre-se, acabou filme você traz minha filha para casa. Ouviu?!?
               Pronto!!! Estava a caminho do cinema.
            O querido cinema Tabajara. Finalmente depois de vencer a timidez, estava levando a garota mais linda do mundo para assistir um sangrento e hilário filme de ficção científica".
               - Caramba, vô!!! Foi assim que o senhor começou a namorar a Mariana?
               - É, filho. Desse jeitinho, tirando as liberdades cinematográficas, foi assim mesmo.
               - E por que o senhor casou com a vovó e não com Mariana?
               - Tempos depois ela foi fazer faculdade em outra cidade. Nós nos desentendemos. Ela foi embora e nunca mais falei com ela.
                - Ela foi o amor da sua vida?
                - A Mariana foi o primeiro amor da minha vida, depois encontrei sua avó e me apaixonei de novo.
            - E agora depois de cinquenta anos o senhor decidiu se encontrar com a Mariana de novo. Que coisa!!!
               - Filho faz dez anos que sua vó morreu. Desde então venho me sentindo sozinho. E com a velhice a gente passa a pensar muito no passado e nas coisas que ficaram pendentes.
               - Pendentes como o que?
            - Filho, me arrependo muito de não ter dito para Mariana o quanto eu a amava. Queria falar isso para ela. Sabe, fechar um ciclo para ficar em paz.
            - Ela marcou contigo hoje, aqui na praça. Caramba, isso já faz um mês. Ela já está atrasada. O senhor acha que ela vem?
            - Sei lá, garoto. Talvez. O velho se vira e mira, novamente, o passado, desfocando o olhar em borrões multicoloridos de uma vida inteira.
            Aos poucos as imagens vão tomando foco e uma linda garota de cabelos castanhos e olhos caramelos claros se aproxima. Mariana.
                 - Oi. Desculpe incomodar, o senhor é o seu Armando?
                 - Sim...Sim...você é???
                 - Meu nome é Aurora, sou neta da sua amiga Mariana. Senhor, por favor, não precisa se levantar. Estou muito nervosa porque tenho uma notícia muito triste para te passar. Vovó faleceu duas semanas atrás.
             Seu Armando não consegue esconder o espanto. Uma dor que começa no seu coração vai tomando seu corpo. Ele solta a bengala e leva suas mãos aos olhos tentando esconder as lágrimas. Seu neto e Aurora lhe abraçam tentando consolá-lo.
            - Nós não sabíamos de nada. Ela nunca falou sobre o senhor ou sobre seu encontro hoje. Estávamos revendo seus pertences quando encontramos o diário dela onde contava tudo sobre o encontro e a felicidade por te rever. Eu me senti na obrigação de vir aqui e te passar a notícia por mais que fosse doloroso para o senhor e para mim. No diário ela frisou como era importante te rever e como ela ainda te amava.
            Eles permaneceram abraçados com o velho Armando enquanto ele chorava por todas suas lembranças tristes e felizes do passado.
                  No entanto, veja como são as coisas. Aurora e o neto de Armando passaram a conversar muito. Tempos depois os dois jovens começaram a namorar e depois marcaram casamento. E Armando levou a noiva ao altar entregando-a para o neto.
                 O ciclo se fechou, pois o amor é assim, tão injusto, inesperado e maravilhoso.

JEAN E SUZETTE EM PARIS (Edu Reginato)

          
         Fazia quinze minutos que os dois agentes observavam em silêncio o jovem, cabisbaixo, que respirava pesadamente. Outro homem engravatado entra na sala e entrega uma papelada para o agente mais velho que lê por alguns minutos e a seguir quebra o silêncio.
           - Jean. Jean, me escute. Recebemos a papelada da Interpol. Agora temos autorização para iniciarmos as gravações de suas declarações. Amanhã à noite chegarão alguns agentes vindos de Lyon. Eles querem dar continuidade aos depoimentos. Você me entendeu? Quero que você tenha consciência que tudo será gravado - o agente mais velho fala para o microfone no centro da mesa - Depoimento de Jean Buarque, brasileiro, natural do Rio de janeiro. O mesmo recusou a presença de um advogado. Data do arquivo: vinte e quatro de agosto de mil novecentos e noventa e cinco. São exatamente quinze horas e treze minutos. Jean, agora é com você. Conte o que aconteceu com Suzette. Qual o envolvimento entre vocês dois e o atentado ao metrô de Paris em julho passado?
            O agente mais velho empurrou o microfone para Jean, mais cabisbaixo, num fio de voz.
         - Bem...meu...meu nome é Jean. Jean Bu...Buarque. tenho trinta e dois anos e viajei para Paris a passeio há quatro meses, permanecendo por lá durante três meses. Me hospedei em variados hotéis usando diversos nomes, porque era divertido ser todo dia uma pessoa diferente. Tenho dupla cidadania. Sou fluente em francês, italiano, inglês e espanhol, então sempre foi fácil viajar pela Europa, principalmente na França. Naquele momento estava com bastante dinheiro e desfrutei todos os luxos de Paris, durante semanas pulei de hotel em hotel, na última semana estava no Beau Manior na rue de L'Arcade, mas mudei para o George V e foi lá que conheci Suzette...
         - Como isso aconteceu e quais foram as ocorrências seguintes? Interrompeu o agente mais novo, afrouxando a gravata e acendendo um cigarro.
             Jean, sorriso amargo, levantou a cabeça e se ajeitou na cadeira.
            - Bem...eu...eu estava tomando o café no Les Prince, completamente distraído com o seu belo jardim quando aquela linda garota chegou perto da minha mesa, abaixou os óculos escuros e perguntou se eu me lembrava dela. Respondi que com certeza lembraria dela se tivéssemos nos conhecido. Ela riu e disse que havia me confundido com Jaques, um amigo que trabalhou com ela.
            - Você sabia quem era ela? Reconheceu ela? Perguntou o agente mais novo.
         - Não. Não. Eu nem imaginava quem era ela. Fui saber de tudo agora pela tv. Não leio jornais e assisto pouco a tv. Sou um desinformado assumido. No entanto, a beleza e simpatia dela me cativaram e convidei-a para se sentar. Conversamos agradadavelmente por algum tempo. E, após o café e cerca de uma hora e meia além, eu já estava completamente apaixonado por aquela francesinha ruiva e comecei a acreditar que as minhas últimas vinte e quatro horas em Paris seriam marcantes. Não tinha nada a perder, então arrisquei e convidei-a para caminharmos à margem do Sena. Acho muito romântico. Pegamos um táxi e fomos para lá. Caminhamos e aproveitamos para visitar muitas bancas dali e tivemos animadas conversas com os bouquinistes, descemos a escada que leva à margem do rio e entramos num peniche, aproveitamos para saborear um assiette fromage acompanhado com um delicioso cabernet. Foi nesse peniche que nos beijamos pela primeira vez. Eu não acreditava no que estava acontecendo. Estava simplesmente eufórico. Apaixonado à primeira vista na cidade mais bonita do mundo! Qualquer pessoa fantasiosa gostaria de viver uma história de amor em Paris.
            "Passamos o dia visitando vários lugares pitorescos da cidade que eram marcantes para mim. Fomos até Montmartre e ficamos na escadaria de Sacre-Coeur apreciando a vista e escutando os músicos que tomam o lugar de uma contínua alegria. A seguir chegamos na place du Tertre onde vários artista pintam e vendem suas obras. Suzette teve o rosto desenhado por uma artista de lá, chamada Flore Mediano. Ela me deu o quadrinho, mas acabaria perdendo-o no incêndio daquela noite. A seguir pegamos um táxi e seguimos na avenida Montaigne até a Rond Point e fomos até a praça Charles de Gaulle para ver o Arco do Triunfo. Ficamos abraçados bastante tempo diante do impressionante monumento erguido a mando de Napoleão Bonaparte. Deixei para o anoitecer a chegada na Pont-Neuf, a ponte dos namorados. Era, sem dúvida, a coroação simbólica daquele amor que florescia em mim e, sem eu saber, estava tão perto de acabar. Sobre a ponte nos beijamos e confidenciei que estenderia minha permanência em Paris e a volta para o Brasil ficaria adiada. E, naquele momento, senti uma certa tensão no seu olhar, tentei não me preocupar com isso, acreditando ser minha imaginação e em seguida nos hospedamos numa modesta pensão. Nessa pensão passamos parte da noite fazendo amor e jurando ficarmos juntos por um bom tempo.
            Deixamos a pensão e rumamos de táxi, novamente, para Montmartre onde jantamos no Auberge de La Bonne Franquette. De repente, um estranho se sentou junto de nós e apontou uma arma para Suzette, mandando-nos seguí-lo; na rue Saint-Rustique entramos num carro e lá estava outro sujeito, impressionantemente parecido comigo, que acreditei ser Jaques, o amigo que trabalhou com Suzette e que ela havia me confundido de manhã. Eles esbravejavam. Jaques gritava que o acordo estava rompido e que ela havia comprometido a célula com sua irresponsabilidade e que teriam que executar o plano o quanto antes. Suzette disse que estava cheia de tudo aquilo, que havia cometido um erro, que não contassem com ela, que estava fora. Jaques atirou na cabeça de Suzette. Eu agarrei a arma e outro tiro acertou o motorista que perdeu o controle e capotou num declive. Fui lançado para fora e o carro rapidamente se incendiou. Fiquei desorientado por um tempo vendo o carro em chamas com Suzette, meu amor, seu quadro e seus segredos carbonizando-se na minha frente. Desesperado, voltei para o hotel, peguei minhas coisas, segui para o aeroporto e voltei para o Brasil. Tempos depois, vi meu retrato falado e a suspeita de estar envolvido num atentado terrorista, então resolvi me entregar. É só".
            Jean limpou os olhos e o rosto, úmidos de lágrimas. Enquanto isso o agente mais velho atendia uma ligação do interfone, sussurrando algumas coisas; momentos depois ele desligou. Indicou para o agente mais novo abrir a porta e dois outros homens entraram.
            - Sr. Jean, após sua apresentação à polícia, entramos em contato com seus familiares que enviaram dois representantes para conversar conosco. Creio que conhece o Dr. Jorge Bacelar, advogado de sua família há décadas e o Dr. Dante Pimentel, neurologista e médico, amigo de sua família há anos. E foi através de seu médico que soubemos de uma peculiaridade. Dr. Dante, por favor, diga no microfone o que você me relatou ao interfone.
            O médico cumprimentou os agentes e olhou profundamente para Jean que desviou sua cabeça, seu rosto lívido. O médico sentou-se à frente de Jean e falou no microfone.
         - Jean Buarque é meu paciente há cerca de sete anos. Jean sofre de uma doença degenerativa incurável. Lutamos há anos para estabilizar a doença tentando vários tipos de tratamento. Estivemos na França no mesmo período que antecederam os atentados. Nesses três meses Jean foi submetido à um extenuante tratamento intensivo para prolongar um pouco mais a sua vida. Eu fiquei todos esses meses junto dele, acompanhando-o na sua terapia diária. Além dessa doença degenerativa, Jean sofre de pseudologia fantastica, um distúrbio de personalidade atualmente mais conhecido como transtorno factício em que o paciente conta histórias complexas e intricadamente detalhadas sobre sua vida presente e pregressa. Tais histórias beiram a plausibilidade e quanto mais é confrontado mais inventará histórias convincentes. Acredito que ao ver o retrato falado apresentado na tv, coincidentemente parecido com ele, Jean criou uma história que para si era completamente real e havia acontecido, não aguentando a pressão por acreditar ter vivido tudo aquilo, ter perdido um grande amor e ser suspeito de terrorismo, ele resolveu se entregar.
            - Doutor, isso quer dizer que nunca estiveram em Paris? Perguntou o agente mais novo, perplexo.

            - Sim. Isso quer dizer que essa história, esse dia, essa noite, Paris, nunca aconteceram.