ding...dong
ding...dong
Ela atendeu a porta.
O Homem limpava os seus sapatos no tapete de boas vindas.
Era um vendedor, ela sabia.
No fundo da casa uma criança gritou, manhosa.
Ela agradeceu, mas recusou qualquer coisa antes de ele falar. Alegou estar sem tempo.
O Homem segurou a porta com um dos pés, disse que levaria uns minutinhos, o que ele tinha para mostrar mudaria a vida dela.
Afinal, o que seria perder um tempo escutando um papo de vendedor. Aquela manhã estava monótona mesmo.
Gritou para a criança brincar no quarto e deixou o homem entrar. Ele parecia confiável e polido. Por que não? Uns minutos depois era só recusar qualquer coisa que ele estivesse vendendo e voltar para sua vidinha.
- O que é que você tem para me mostrar?
- Ah, minha senhora! Tenho aqui um produto revolucionário que vai mudar a sua vida.
Então ela percebeu que ele segurava uma grande mala, daquelas de couro duro, antigas, bem gastas como se tivesse rodado o mundo.
Ele abriu a mala, retirou um aspirador, bem antiquado, um modelo ultrapassado, sem o design moderno de hoje. Era uma peça marrom, um enorme retângulo com um tubo articulado.
Ela olhou para o eletrodoméstico quase rindo. Isso!
- Meu senhor, eu já tenho um aspirador. E olha! É bem mais bonito que esse tijolão.
- Mas senhora esse aspirador, é diferente uma peça de tecnologia que estamos lançando no mercado. E a senhora terá a chance de testá-lo antes de ser vendido nas lojas. Estamos fazendo testes de mercado, primeiro vendendo em baixa escala diretamente ao cliente para depois lançarmos em escala industrial já com aprovação de público.
- Ahã. Grunhiu a dona de casa, achando que estava fazendo parte de um embuste.
- Sei que está incrédula. Mas esse aspirador é a última palavra em tecnologia.
- E o que esse aspirador faz de especial.
- Ah minha senhora! Esse aspirador suga as incômodas sujeiras para dentro dele.
A dona de casa quase engasgou. Meu Deus, isso é uma palhaçada!
- Senhor, o meu aspirador faz a mesma coisa. na verdade todo aspirador no mundo faz a mesma coisa!
O vendedor ergueu uma sobrancelha desafiante.
- E para onde a senhora acha que a sujeira vai parar?
Deus o que está acontecendo aqui? Será uma pegadinha?
- Ora meu senhor, a sujeira vai para um saquinho de papel que fica dentro do aspirador!!!
O vendedor abriu um sorriso vencedor.
- No caso desse aspirador a sujeira não vai para saquinho nenhum.
- Ora, então para onde vai a sujeira? Para um compartimento especial?
- Não, minha senhora. A sujeira vai para outra dimensão!
A dona de casa engasgou pela segunda vez. Agora sim, isso é uma pegadinha!
- Meu senhor, o senhor poderia se retirar estou com o feijão no fogo e tenho outros afazeres...
- Sei que a senhora está incrédula. Mas é a pura verdade. Toda a sujeira sugada por esse aspirador é desmaterializada desse plano para outra dimensão. a senhora nunca mais terá que se incomodar com a incômoda tarefa de trocar o saquinho de papel quando ele encher.
Naquele momento a situação estava tão surreal e a manhã tão monótona que a dona de casa resolveu aceitar a brincadeira. Vai saber. O tédio e um bichinho tão terrível quanto a curiosidade.
- E como, meu senhor, essa maravilha acontece?
- Ah minha senhora! Que bom que perguntou! A resposta é simples e ao mesmo tempo complicada.
- Ahã?
- Os técnicos de nossa empresa. Uns homenzinhos muito inteligentes conseguiram condicionar um pequeno buraco negro dentro de cada unidade de nossos aspiradores!
- O que? Um buraco negro o que é isso?
- Ah minha senhora, também fiquei nessa dúvida quando fui aceito para esse trabalho. No entanto nossa empresa tratou de nos dar um curso para entendermos melhor o produto que iríamos vender. Um buraco negro é um é um corpo celeste com campo gravitacional tão intenso que a velocidade de escape se iguala à velocidade da luz, isso quer dizer uns 1 079 252 848,8 quilómetros por hora. Sabe, Nem mesmo a luz pode escapar do seu interior. - e ele coube aí dentro do aspirador?
- Isso mesmo, os buraco negros podem ter qualquer tamanho, de microscópico a astronômico. - Mas, como colocaram esse buraco negro aí dentro?
- Bem, minha senhora, pelo que entendi a partir do curso que me foi apresentado, parece que nossos técnicos conseguiram acelerar a fase de vida de uma estrela de grande densidade, de alguns milhões de anos para alguns dias e assim provocar uma explosão de uma super-nova e assim dar origem a um buraco negro.
A dona de casa estava cada vez mais aturdida. No entanto era inegável sua curiosidade, querendo saber até onde ia a brincadeira.
- Mas senhor como conseguiram pegar uma estrela e fazer uma explosão e disso virar um buraco negro? E colocar tudo num aspirador?
- Ah minha senhora! Os técnicos da minha empresa são muito sabidos. Eles não podiam pegar uma estrela, por que elas ficam muito, muito, muito, muito longe. Mas eles descobriram como sintetizar uma. Eles conseguem fabricar pequeninas estrelas de grande densidade e acelerar sua morte fazendo-as explodirem e dando origem a um pequenino buraco negro é engarrafado nesse aspirador.
- Ahhh! Sim, ficou mais claro! Mentiu a dona de casa que queria sair dali correndo e gritando, no entanto, devido a sua boa educação, se resignou a puxar uma cadeira.
- Minha senhora graças ao engenho de nossos técnicos os problemas de sujeira do mundo acabaram! Você poderá limpar a sua casa e sua filha e a filha de sua filha e a filha da sua neta e todas gerações seguintes poderão limpar a sujeira com este mesmo aspirador sem nunca precisar trocar o saquinho de papel.
- E...e...e...Quanto custa esse buraco negro...quer dizer esse aspirador.
- Ah minha senhora! Custa uma bagatela, no entanto antes de sua compra quero deixar uma amostra do produto para a senhora testá-lo por uma semana. Se não gostar é só devolvê-lo para mim no término de sete dias e assunto encerrado. Anotaremos seus pareceres, os prós e contras do produto na sua opinião e lhe desejaremos uma boa vida, infelizmente um pouco mais suja se for negada a compra, é claro!
E o vendedor deu uma boa gargalhada. Humor de vendedores é tão incompreensível como buracos negros.
- O que me diz, minha cara senhora?
A dona de casa estava pasmada. Seria uma brincadeira ou não? Mas e se os pequenos homenzinhos engenheiros de aspiradores tivessem mesmo construído um eletrodoméstico com um buraco negro embutido e se ela nunca tivesse que trocar aquele imundo saquinho de sujeira e ácaros. Os malditos ácaros seriam desintegrados para outra dimensão. Seria como o paraíso na terra. Um mundo sem ácaros, sem pó nos vãos dos tacos de madeira, sem migalhas no chão, sem fios de teias de aranha nos cantos das paredes! Não teve dúvida e aceitou fazer o teste. O que ia perder? Se não gostasse devolvia o aspirador, mas se gostasse faria um bom negócio. Ela pegou a cláusula de teste colocou os números de seus documentos, assinou.
O vendedor ficou muito satisfeito abrindo um brilhante sorriso pois faria mais uma cliente feliz e depois, talvez, ganharia uma boa comissão por suas vendas. Ele já estava no portão da rua quando lembrou de avisar a dona de casa sobre um detalhe.
- Ah minha senhora! Não se esqueça, a senhora não precisa abrir o aspirador para retirar o saquinho de sujeira, porque ele não tem saquinho de sujeira. Os nossos técnicos advertiram para avisarmos nossos felizes compradores para NUNCA ABRIREM O ASPIRADOR!
O Vendedor entrou no seu reluzente carro e saiu rua abaixo.
A dona de casa feliz da vida, mal podia se aguentar de vontade para experimentar a maravilha tecnológica. Ligou o aspirador na tomada e clicou no botãozinho on/off. O barulho da máquina parecia um sussuro e a dona de casa passou o aspirador em todos os cantos, em todas as almofadas, em todos os armários, até no quintal. E foi assim por uns três dias, a dona de casa querendo desafiar todo o poder da máquina para provar para si mesma que aquilo poderia ser verdade. Cada vez mais ficando ambiciosa no seu experimento, pegava baldes e baldes de terra e jogava no chão da sala passando o aspirador que não engasgava em nenhum momento, sugando tudinho. Depois, foram baldes de cascalho, lixo orgânico, um pássaro morto que ela encontrou no quintal, gordura da caixa de gordura. Tudo era sugado sem problemas e deixava o local absolutamente limpo.
Realmente, não havia mais dúvidas, tinha que haver um buraco negro naquele aspirador. Será que existia mesmo? E como eu disse alguns momentos atrás o tédio é um bichinho mais terrível do que a curiosidade. Ou seria o contrário?
Bem, posso resumir que, num milionésimo de segundo, parte da cidade desapareceu, desmaterializada para alguma dimensão.
Posso afirmar que esse aspirador não foi um sucesso de vendas e nem foi lançado no mercado nacional. Logo que várias regiões do país começaram a se desmaterializar, muitos se perguntaram a origem dos estranhos fenômenos e a fábrica dos revolucionários eletrodomésticos teve que fechar as portas abruptamente e seus vendedores foram discretamente eliminados.
Assim, mais um revolucionário engenho da humanidade não viu a luz dos novos tempos e não resolveu o problema da sujeira que aflige as nossas esforçadas donas de casa.