sexta-feira, 22 de maio de 2009

A BAILARINA E O PALHAÇO (Edu Reginato)

Dedico esse conto à memória de minha querida amiga Flávia. Vou sentir muita saudade da nossa linda Bailarina.

A Bailarina e o Palhaço
Estou com meus trinta e poucos anos e parei para refletir se havia adquirido alguma experiência ou aprendido alguma lição que a Vida e a Natureza nas suas infinitas sabedorias tivessem tido paciência de me ensinar.
Reavaliei meu caráter, minhas ações, meus amores, mas fiquei achando que havia feito pouco, que talvez por causa de meus medos e inseguranças, houvesse deixado de viver.
Mas, o que era realmente "viver" pois essa expressão pode ser tanto biológica como espiritual. Qual seria o real medidor, se houver um, de uma vida plena?
Será que há uma pontuação das coisas que fizemos, tipo escalar o Aconcágua valeria 7000 pontos, um raio cair na cabeça 2 vezes valeria 10000 pontos, ver o rosto do seu filho ao nascer valeria 400000 pontos, beijar a menina feia da 3ª série valeria 200 pontos.
Será que poderíamos avaliar se nossas vidas foram plenas ou medíocres?
Pensava nessa pontuação da vida quando recebi a notícia que a Bailarina havia morrido. Essa notícia me derrubou. Meu Deus! Bailarinas não podem morrer tão quanto fadas não podem morrer!!!
E essa Bailarina era única e especial. Ela não era uma dessas do Bolshoi, do Municipal ou da Deborah Colker, essa era livre por si só e por isso se assemelhava tanto com uma fada.
Ela adorava flores e pedras mágicas e o cheiro doce de bálsamo e incenso. Ela dançava em silêncio ou sob o barulho melodioso dos cânticos árabes. Ela fez chorar de inveja a filha do Xá, tamanha sua beleza e leveza. Ela fez corar a rainha Ayesha e todo seu séquito de 30000 homens que ajoelharam diante de sua formosura.
Ela fazia rir e chorar. E sua alegria era algo tão tangível que se podia retirar um filete de alegria e passá-la no pão.
Seus pais e irmãos eram as pessoas mais realizadas, as mais felizes e sempre antes de dormir e ao acordar levantavam as mãos aos céus agradecendo à Alá, Jeovah, Deus, Buda e à todos que são um só pela sua filha, a Bailarina.
No entanto, a Bailarina sentia, às vezes, algo que tocava no seu peito, algo que vez doía, vez não. Preocupada, ela consultou médicos, xamãs, rabis, vizires e oráculos. Todos diziam a mesma coisa, que ela precisava de um amor e que aquela dorzinha no peito era a metade de seu coração pulsando, pedindo pela outra metade.
Ela comunicou sobre o diagnóstico dos sábios para seus pais e irmãos que ficaram sentidos pela dor do seu meio coração.
Porém, a Bailarina continuou a dançar por palácios e festivais encantando desde mendigos à sultões e, aos poucos, foi se acostumando com a dor do seu meio coração.
Um dia correram de boca-em-boca as novidades sobre a chegada de um circo mambembe que vinha de terras distantes. Todos da cidade, inclusive a Bailarina e sua família, foram conferir o espetáculo que ocorreria na praça principal.
Um grande palco fora construído com tapumes de madeira, sedas e tapetes orientais multicoloridos. Dois grandes incensários ficavam nas extremidades do palco e luzes de lampião iluminavam o pano principal vermelho da boca do palco criando uma atmosfera mágica de luz, fumaça, cores e odores.
A expectativa era grande e todos levaram um susto quando uma grande porção de pólvora estourou num brilho forte e o pano se abriu dali saindo vários palhaços dando cambalhotas e outros tocando flautas, cítaras e tambores.
A beleza das luzes, cheiros, acrobacias e melodias encantaram a Bailarina que se dispôs a dançar acompanhando a magia do espetáculo, mas de repente um som diferente, único entre os vários sons, tomou de surpresa a praça e bateu forte no seu meio coraçãozinho.
Era um som rouco e aveludado. Era uma música forte e quente vinda de um instrumento longo e curvo banhado a ouro. Quem tocava era um palhaço de grossas sombrancelhas, usando uma boina, largas calças verdes, um lindo casaco vermelho e enormes sapatos coloridos.
Aquele palhaço tocando com tanto carinho o estranho instrumento fez a Bailarina chorar e chorar e rodopiar e rodopiar tornando o mundo a sua volta úmido e borrado. Num instante ela estava em volta do Palhaço, ela completando a música dele e ele completando a dança dela e foi dessa forma que se apaixonaram. E assim que se casaram com ele tocando o dourado instrumento e a Bailarina dançando e cantando suavemente
Naquela mesma noite do casamento, quando estavam sós, o palhaço desabotoou seu casaco de gala vermelho e colocou a mão sob a camisa de seda na altura do peito, fazendo um esforço danado, retirou algo de dentro do seu corpo e mostrou para a Bailarina que recebeu, emocionada, a metade do seu coração que faltava.
O Palhaço e a Bailarina viveram felizes juntos o tempo que lhes foi reservado, foi pouco, infelizmente, mas foi pleno de amor, amizade e sinceridade. Ambos se completavam. Ambos riam um do outro e se amavam. Ela dançando e ele musicando sua beleza.
Certo dia a Bailarina adoeceu e o Palhaço sofreu muito, mas fazia de tudo para ser forte e se manter palhaço, no entanto em muitos momentos teve que ser homem e esconder o seu nariz vermelho. Ele lutou, rezou, chorou, riu e meditou sobre aquele revés do destino.
Aquele homem palhaço ficou do lado da bailarina sempre lhe dando carinho e amor e continuou se apresentando e distribuindo alegria ao mundo e se preparando para o dia especial que se apresentaria aos três grandes Reis Palhaços, a maior honra que um palhaço podia ter.
Então o dia chegou e o Palhaço partiu para o Reino da Saúde e Alegria onde existia um dos mais lindos castelos do mundo. Adentrando no castelo, ele foi levado à um imenso auditório rodeado por arquibancadas cheias de palhaços de todos os tipos e tamanhos. No centro, sentaram, em tronos feitos de jujubas, os dois Reis Palhaços e a Rainha Palhaça. O nosso bom Palhaço dedicou seu trabalho à sua amada Bailarina e desse amor ele se nutriu e com alegria transmitiu toda sua mensagem e fez rir e chorar toda a palhaçada.
Terminada a apresentação os Reis Palhaços se retiraram para um conselho. Todos torciam para que o humilde palhaço se tornasse um Senhor Palhaço, um mestre, e esperavam ansiosos a decisão do conselho. Minutos se passaram e os Reis retornaram dando a benção mágica de confete e serpentina tornando-o Senhor Palhaço, um mestre que ensinará aos homens como se tornarem livres e felizes. E foi uma festa danada toda aquela palhaçada cantando e se explodindo de felicidade.
Mas, o Senhor Palhaço não teve tempo nem prazer de comemorar, voltou o mais rápido que pôde para junto de sua adoecida Bailarina que estava apenas esperando que seu Palhaço tivesse sucesso para ficar tranquila e plenamente feliz sendo amada pela sua família e pelo homem ou palhaço da sua vida.
Eles ficaram juntos mais alguns dias e numa calma madrugada uma bela e iluminada Nossa Senhora ergueu a Bailarina nos braços e as duas voaram, felizes, para junto de Deus.

********

Admirável público, senhores, senhoras e crianças, não fiquem tristes!!! Não é por que uma história de amor não termina bem que devemos acreditar que não houve final feliz. Houve sim senhor!!!
Pois, nada é mais feliz do que amar e ser amado. E o Senhor Palhaço, meus caros, continuará espalhando alegria sempre satisfeito porque a outra metade de seu coração estará dançando sempre ali, entre o mar e o pôr do sol, nas nuvens de chuva e nos arco-íris, no canto dos pássaros ou, simplesmente, nos seus sonhos mais felizes.

********

Quanto a mim, deixei de pensar se vivi plenamente meus trinta anos, pois se tive a imensa alegria de ser amigo da Bailarina dessa história e de seu galante Senhor Palhaço, se tive a sorte de encontrar um amor que me entendesse, se tive a alegria de ver meus filhos nascerem ou de rir e jogar conversa fora com os amigos ou ver o nascer e o pôr do sol, ou sentir a chuva e o cheiro de grama molhada, isso é ter vivido feliz.

video

5 comentários:

"Quebequase" Latinos disse...

oi Dú,

como é forte nosso amigo palhaço!
E como é iluminada nossa bailarina!

E já que brilha o sol quentinho em nossa pele a cada manhã, seguimos firmes com a certeza de que tudo vale a pena.

beijos,
gabi

batone disse...

Dú, nós, amigos da Flávia, te agradecemos esta sensível homenagem, que salienta a delicada beleza da existência, sempre misteriosa e encantadora, nos consola e nos reanima. Como nós todos, a nossa querida Flávia continua o seu percurso, logo, logo, refeita e disposta para novos desafios e superações que aguardam por todos nós, nos horizontes evolutivos da vida eterna.

lilian disse...

Edu,
sua narrativa me lembrou o trabalho de um pessoal de Sto André - SP, um grupo de artista que cria narrativas "mágicas" que auxiliam as pessoas em hospitais.

Parabéns pelo seu estilo leve de escrita.
Lilian Taniguchi

http://www.narradoresdepassagem.org.br/home.html

JILL disse...

Oi Edu, Sou amiga da Flavia, dancei com ela na Deborah Colker, hj moro em Floripa, mas mesmo de longe, tinha contato com ela via email.
Hj recebi o texto que vc escreveu para os dois e nossa, é muito lindo, me senti muito bem ao ler, e me senti imensamente perto dela.
Obrigada por isso.
Bj
Jill

Pedrock disse...

Não conheci o Sr. Palhaço e a Bailarina, mas a história real e o conto que acabei de ler me fizeram ficar íntimo dos dois.
Tal história, me fez lembrar de uma música 'NOSSA SENHORA DA PAZ' do Cordel do Fogo Encantado, letra que transcrevo abaixo:

"Nossa Senhora da Paz
A bailarina do circo
Vem beijar a pele da cidade
As feridas
Os jardins
A pressão
E o motor

Nossa Senhora dos Sonhos
A trapezista do circo
Venha descansar na minha cama
Traga toda luz que há no céu
Traga toda luz que há no chão
Leva meu atalho e minha sorte
No movimento da rua
As feridas
Os jardins
A pressão
E o motor"

E como o show não pode parar, nada melhor que terminar este recado com aplausos.

CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP